“Quando fui levar, pessoalmente, o convite da Universidade de Brasília para o seminário ao saudoso Ulysses Guimarães, ele me disse: “Mas logo eu ir à Universidade de Brasília?” Ulysses espantou-se de ser convidado para aquele seminário, junto com Djalma Marinho e Tancredo Neves, por causa do clima realmente autoritário da época e pelo fato de que a Universidade, externamente, tinha a imagem de bastião do autoritarismo.” Essas palavras eu as pronunciei quando da sessão solene que a Câmara de Deputados prestou à Universidade de Brasília – UnB por ocasião dos seus 45 anos de fundação.
O convite feito ao Dr. Ulysses foi em razão do seminário “Modelos alternativos de representação política no Brasil e Regime Eleitoral”, realizado no auditório da Reitoria da UnB. Participaram dos 5 painéis do seminário o cientista político Orlando Carvalho, os professores Miguel Reale, Tércio Sampaio, Vicente Barreto, Vamireh Chacon, Bolívar Lamounier, Isabel Valadão, os senadores Josafá Marinho, José Sarney, Paulo Brossard, Tancredo Neves, além do combativo Deputado João Marinho.
No mesmo discurso, mostrei que em pleno regime autoritário a Universidade de Brasília, através de sua editora, publicou as mais importantes obras do pensamento liberal de todos os tempos. Nenhuma instituição de ensino superior em 20 anos de regime autoritário teve tanta efervescência intelectual como a UnB. Lembrei, inclusive, que os “Encontros Internacionais da UnB” enriqueceram o debate político no Brasil, numa hora crucial das nossas instituições republicanas. Intelectuais de todos os matizes ideológicos estiveram proferindo aulas, seminários e cursos na UnB. Basta citar Afonso Arinos de Melo Franco, Hélio Jaguaribe, Celso Lafer, Marcílio Marques Moreira, Tércio Sampaio Ferraz, Rubens Recúpero, José Guilherme Merquior, Cândido Mendes, Roberto Campos, Maurice Duverger, Norberto Bobbio, Leszek Kolakowski, Roberto Dahl, Samuel Finer, Ernest Gellner, Kenneth Minogue, Robert Skilsky, Perry Anderson, Francis Cripps, Joan Robinson, Tibor Scitovsky, Roberto Mangabeira Unger, Friedrick Hayek, Lucio Colletti, Geoffrey Hawthorn, Donald McRae e Ralf Dahrendorf, entre outros enriqueceram o acervo intelectual da Universidade.
A inesperada morte de José Carlos Almeida Azevedo, o saudoso reitor da UnB de todo esse período referido, falecido na última terça-feira, levou-me à reflexão sobre sua figura de homem corajoso e polêmico e às muitas interpretações equivocadas sobre sua difícil missão, numa época conturbada da nossa história política. Azevedo enfrentava restrições do próprio “sistema” autoritário porque dava plena liberdade aos departamentos para contratar quem tivesse mérito para ser professor, independente de qualquer coloração ideológica, posto que nunca consultou os órgãos de informação do Governo para saber quem era quem. Professores assumidamente anti-“sistema”, como Roberto Cardoso de Oliveira, Edmar Bache, Cristóvão Buarque, Décio Garcia Munhoz, Lauro Campos, Gláucio Dillon Soares, Gentil Martins Dias e os ex-senadores Franco Montoro e Lauro Campos, ali ministraram aulas, como, aliás, todos os reitores que lhe sucederam na UnB, inclusive o atual, ferrenho adversário do governo autoritário. Phd em Engenharia Naval e em Física Nuclear pelo mais avançado centro de ensino tecnológico do mundo, o MIT, José Carlos Azevedo, que foi oficial da Marinha, tinha profunda cultura humanista, uma vez que cursou o antigo curso clássico do Colégio São Luís, em São Paulo, onde estudou profundamente o latim e o inglês. Azevedo, tanto recitava Shakespeare, como os discurso de Cícero, ambos no original.
Nunca me esqueço de uma solenidade de formatura dos alunos de Direito, em 1979, cujo paraninfo foi o grande Sobral Pinto, representado no dia, por motivo de doença, pelo ex-Ministro Sepúlveda Pertence, que teve como orador da turma o atual presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes. Ao concluir a solenidade, o reitor Azevedo, para mostrar a importância do Direito, na organização e funcionamento de uma sociedade, citou em latim as palavras de César aos soldados romanos, quando da guerra contra Aníbal: a força de Roma não estava em seus exércitos, mas no seu Direito.
No momento triste de seu sepultamento, ao lado do professor Inocêncio Coelho, Vamireh Chacon me dizia: “Anízio Teixeira idealizou a UnB, Darcy Ribeiro a criou e Azevedo a consolidou.” A história da educação brasileira, ainda deverá lhe fazer um grande reconhecimento."
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